A fundadora das Obras Educativas Padre Giussani, Rosa Brambilla, participou do encontro "Nada antepor a Cristo", realizado durante o Meeting de Rimini, na Itália, em memória de Padre Luigi "Pigi" Bernareggi", cinco anos após sua morte. Além de Rosa, o encontro contou com a participação de Anna Michelini, gerente e ex-agente humanitária da AVSI em Belo Horizonte, e foi mediado por Alexandre Ferraro, responsável pelo movimento Comunhão e Libertação no Brasil.
Rosa compartilhou sua experiência de 44 anos de amizade, convivência e trabalho com Padre Pigi no Brasil. Ao recordar o primeiro encontro com ele, destacou uma característica que permaneceu presente ao longo de toda a sua vida: “Ele tinha um rosto silencioso, mas carregado da presença de Cristo.”
Em seu testemunho, Rosa falou sobre os anos vividos ao lado de Pigi em Belo Horizonte e sobre seu modo de olhar para a realidade e para cada pessoa. Um olhar que, segundo ela, nascia de uma relação profunda com Deus e que o levava a entrar no coração das circunstâncias, mesmo das coisas mais simples.
Rosa também recordou a atuação de Padre Pigi junto às famílias das favelas de Belo Horizonte e sua contribuição para a defesa dos direitos dos moradores. Em 1978, a pedido de Dom Giussani, ela deixou seu trabalho como enfermeira para colaborar com Pigi na pastoral das favelas, experiência que também marcou o início de sua dedicação mais direta à educação.
Ao longo do encontro, Rosa recuperou ainda algumas histórias que revelam a maneira como Padre Pigi vivia cada circunstância como uma oportunidade de encontro com Cristo. Entre elas, lembrou uma frase que ele repetia frequentemente: “Vivemos neste instante que passa; é neste instante que está a realidade.”
Para Rosa, a origem desse modo de viver estava na relação de Pigi com Dom Giussani.
Assista ao encontro completo e acompanhe o testemunho de Rosa Brambilla sobre a vida, a amizade e a fé de Padre Pigi Bernareggi.
Você tambem pode ler a transcrição da fala da Rosa:
Encontrei o Padre Pigi quando ia à missa, naquela época, na Igreja de Santo Stefano, em Milão, mas o conheci mais profundamente nos anos em que vivi no Brasil, especialmente quando morei com ele em sua casa durante um ano. Fiquei muito impressionada com ele na primeira semana, assim que cheguei a Belo Horizonte, na casa das primeiras meninas que Dom Giuss enviou em missão. Ele tinha um rosto silencioso, mas carregado da presença de Cristo.
Levei esse rosto dentro de mim, e ele me ajudou nos primeiros anos difíceis, em um contexto de crise e de sofrimento daquele período. Viver com o Padre Pigi era estar continuamente diante da história, isto é, da experiência de Cristo aqui e agora que Dom Giuss nos havia transmitido. Essa consciência me fez abraçar e dizer sim à realidade, com suas circunstâncias, o que significou me comprometer, embora fosse enfermeira, com o aspecto educativo, sem “ses” nem “mas”, porque a realidade nos pedia, me pedia, tudo.
Para educar nossos 180 colaboradores das Obras Educativas Padre Giussani, convidávamos Pigi, a cada seis meses, para dar aulas sobre temas específicos. Com o Padre Pigi vivi 44 anos. Trabalhando com ele, respirava o seu olhar profundo sobre tudo. Percebia que esse olhar profundo lhe pertencia porque ele era um homem que caminhava olhando para o céu, isto é, olhando para Deus. Por isso, ia ao profundo das coisas, das pequenas coisas, mas sempre entrava em sua profundidade.
Ele olhava para elas como Deus as olha, e também as pessoas se sentiam olhadas no profundo de si mesmas. Com ele, experimentei o que o instante significava para ele, algo que repetia com frequência. Cito uma frase que sempre nos dizia: nós não vivemos mais no passado, que já passou, nem no futuro, que ainda não chegou.
Vivemos neste instante que passa; é neste instante que passa que está a realidade. A realidade é agora, neste instante.
Olhar para a realidade como ele olhava foi instrumento de uma mudança que melhorou a estrutura e a vida das favelas, naquela época, das 180 favelas que existiam em Belo Horizonte.
Ele lutou para que as famílias tivessem uma indenização quando os proprietários ou o poder público queriam retomar o terreno, pois, naquela época, elas eram simplesmente mandadas embora, sem receber nada, nada. Antes de 1978, esse direito não existia. Alguns anos depois, junto aos moradores das favelas, foi criada a Lei Pró-Favela, que tornou os moradores da favela proprietários dos terrenos onde haviam construído suas casas.
Porque antes podiam mandá-los embora a qualquer momento. Quando se tornaram proprietários da terra, ninguém mais podia expulsá-los. E essa foi uma grande vitória não apenas para nós, mas depois também para todo o Brasil, para as favelas de todo o país. Uma lei que depois foi adotada por todos.
Em 1978, a pedido de Dom Giuss, interrompi meu trabalho como enfermeira para colaborar com Pigi na pastoral das favelas.
Ele sofreu vários acidentes: de carro, de Vespa, de moto, de bicicleta. De vez em quando me ligavam do hospital para avisar que Pigi estava lá. Mas o que mais me impressionou, entre todas as coisas que lhe aconteceram, foi quando ele teve uma embolia no olho.
Eu estava lá quando ele acordou depois da operação e disse: “Agora, com este olho, vejo mais.”
E ele viveu isso como um dom, isto é, como um dom. Com a consciência de que já não enxergava com aquele olho, mas via melhor do que com o olho com o qual enxergava, porque via mais a realidade, isto é, Deus. Por isso, viveu esse acontecimento como um dom. Para ele, era um dom viver diante de Deus.
Outro episódio que gostaria de contar, que talvez muitos já conheçam, é que certa vez ele havia recebido, soubera pela paróquia, que um chefe da favela queria matá-lo, por causa de algumas posições claras que ele tinha contra as drogas, que no Brasil têm o atrativo do dinheiro fácil.
Quando ficou sabendo, decidiu ir visitá-lo. Eu fiquei assustada, por um lado, mas, por outro, o que ele pensou?
“Vou visitá-lo.”
E foi visitá-lo. E, quando foi encontrá-lo, levou-lhe uma estátua de Cristo crucificado, envolvida em um jornal.
Quando Pigi chegou à sua casa, abriu um grande sorriso para aquele homem, para aquele chefe. E Pigi nunca se esqueceu desse encontro com aquele chefe, que o acolheu com aquele sorriso imenso.
A verdade que ele possuía o tornava livre, essencial em tudo, capaz de saborear a vida e tudo o que ela oferecia.
O encontro com o “E” maiúsculo que fizemos é eterno e está presente no instante, aqui e agora, onde estamos neste momento. Isso muda o pedacinho de mundo em que vivemos.
Para Pigi, era a relação com Dom Giuss, o encontro que ele teve com Dom Giuss. Vivendo com ele, era visível como Dom Giuss era um pai para Pigi. Para mim, que vivia com ele, a relação de Pigi com Giuss era como se fossem uma coisa só: Dom Giuss e Pigi.
Ele viveu verdadeiramente uma relação com Giuss, tanto pastoral quanto propriamente no cotidiano, na memória daquilo que havia encontrado.