Eu pensava que ele nem brincava mais

out 1, 2026 | Noticias

“Nossa, tinha muito tempo que eu não brincava com meu filho. Por ele já ser adolescente, eu pensava que ele nem brincava mais.”

Foi essa frase que ficou comigo depois que todos foram embora.

Ontem, 47 pessoas estiveram conosco, entre elas 13 responsáveis. Mas, olhando para aquela noite, penso que os números contam muito pouco. O que aconteceu ali não cabe em uma lista de presença.

Nós queríamos que os pais entrassem no mundo dos seus filhos. Não apenas que ouvissem falar dos nossos encontros ou soubessem que seus filhos jantam conosco, conversam, brincam e fazem amizades. Queríamos que experimentassem, por algumas horas, aquilo que os adolescentes vivem quando atravessam aquela porta.

Alguns chegaram com curiosidade, outros com perguntas. Alguns já conheciam, pelas histórias contadas em casa, a importância que aquele espaço havia adquirido para seus filhos. Também nos surpreendeu a presença de pais tão próximos da vida dos adolescentes, que fizeram questão de estar ali e conhecer mais de perto aquilo que seus filhos vivenciam.

Na chegada, nossos próprios adolescentes receberam os responsáveis, indicaram seus lugares e ajudaram a organizar o encontro. Eles conheciam a casa, sabiam como tudo funcionava e, naquela noite, assumiram quase o papel de anfitriões.

Havia também uma regra que ninguém escapou: os celulares deveriam ficar guardados em uma mesa distante.

Não porque o telefone seja proibido, mas porque queríamos uma coisa cada vez mais rara: presença. Estar diante do outro sem uma tela no meio, conversar olhando nos olhos, escutar sem distrações e permitir que aquele momento fosse vivido por inteiro.

Começamos contando aos responsáveis como são nossos encontros e explicando um pouco da dinâmica que construímos com os adolescentes. Mas, principalmente, agradecemos pela confiança. Porque, quando uma família nos entrega um filho para que caminhemos com ele, existe ali algo muito maior do que uma autorização ou uma parceria. Existe a confiança de quem nos permite participar da formação de alguém que ama profundamente.

Durante a conversa, alguns pais fizeram perguntas e outros compartilharam aquilo que escutam em casa: que os filhos se sentem bem ali, que falam sobre os encontros, que consideram importante estar naquele lugar.

Um dos adolescentes disse algo que, para mim, explica muito do que tentamos construir:

“Aqui é um lugar onde posso ser eu mesmo, sem máscaras, sem protocolos. Um lugar onde sou ouvido e acolhido.”

Talvez seja isso que um adolescente precise antes de qualquer coisa: um espaço onde não precise representar um personagem, onde possa chegar com suas dúvidas, dificuldades, descobertas e histórias e simplesmente ser quem é.

Depois da conversa, fizemos aquilo que tantas vezes fazemos com eles: deixamos um tempo livre para a convivência acontecer. Dessa vez, porém, os pais estavam junto.

Alguns jogaram cartas, outros preferiram conversar e, em determinado momento, o gramado virou espaço para um pega-pega. Adultos e adolescentes correndo juntos, rindo, brincando, sem a formalidade que muitas vezes marca a relação entre pais e filhos quando eles crescem.

Foi então que uma mãe me disse:

“Nossa, tinha muito tempo que eu não brincava com meu filho. Por ele já ser adolescente, eu pensava que ele nem brincava mais.”

A frase ficou comigo porque talvez revele algo que fazemos sem perceber. À medida que os filhos crescem, vamos retirando deles algumas coisas que julgamos pertencer apenas à infância. A brincadeira, o tempo sem finalidade, a espontaneidade. Imaginamos que, porque têm 15, 16 ou 17 anos, precisam apenas de orientação, responsabilidade e cobrança.

Mas naquela noite descobrimos que eles ainda querem brincar.

E talvez ainda queiram brincar com os próprios pais.

Talvez o problema não seja que eles tenham deixado de querer. Talvez nós é que tenhamos parado de convidá-los.

Fernanda Campolina e Luisa Cogo também estiveram conosco. Dessa vez, porém, não como coordenadoras, mas como convidadas e homenageadas. Fizemos questão de agradecer pela confiança, pela parceria, pelo espaço, pela cozinha e, principalmente, pela autonomia que nos oferecem para construir esse trabalho com os meninos e suas famílias.

Existe também uma forma de educar quando alguém confia. Quando uma porta é aberta e nos é permitido construir dentro dela, nasce uma responsabilidade, mas também uma oportunidade.

No final, servimos cachorro-quente. E, como acontece nos nossos encontros, os meninos ajudaram a servir, depois ajudaram a limpar e organizar o espaço.

Porque aqui existe uma certeza que tentamos repetir de muitas maneiras: ninguém constrói nada sozinho.

Nem um jantar, nem um encontro, nem uma amizade, nem uma comunidade. Tudo é feito junto.

Quando a última pessoa foi embora e a casa começou a ficar silenciosa, voltamos à frase daquela mãe.

“Eu pensava que ele nem brincava mais.”

Talvez ela tenha descoberto naquela noite que o filho ainda brinca. Mas talvez tenha descoberto algo maior: que ainda existe um caminho até ele.

A adolescência não precisa ser sinônimo de distância. Crescer não significa deixar de precisar do outro. Existe uma parte daquele menino que continua esperando um convite, um olhar, uma conversa, uma brincadeira, uma mesa onde possa simplesmente estar.

E talvez esse seja um dos sentidos mais bonitos do nosso trabalho.

Nós não queremos substituir a família nem ocupar o lugar dos pais. Queremos criar pontes entre eles. Queremos oferecer experiências que aproximem, que permitam que nossos meninos e suas famílias se encontrem de novas maneiras.

Porque protagonismo não significa caminhar sozinho. Significa ter condições para escolher os próprios caminhos sabendo que existem pessoas ao lado.

Ontem, 47 pessoas estiveram conosco. Treze responsáveis. Houve perguntas, conversas, cartas, brincadeiras, pega-pega e cachorro-quente. Houve adolescentes recebendo seus pais e pais descobrindo um pouco mais do mundo dos filhos.

Mas, se eu pudesse guardar apenas uma imagem daquela noite, seria a de um pai ou uma mãe correndo atrás de um adolescente pelo gramado.

Naquele instante, não havia cobrança, boletim, problema ou a preocupação com o filho que está crescendo. Havia apenas um pai, uma mãe, um filho e tempo para estarem juntos.

Talvez seja disso que estamos falando quando dizemos que queremos ajudar nossos meninos e suas famílias a serem protagonistas da própria história.

Não escrever a história por eles, nem dizer qual caminho devem seguir, mas criar encontros que façam com que descubram que ainda vale a pena caminhar juntos.

Às vezes, uma história começa a mudar de um jeito muito simples: com uma porta aberta, uma mesa, um telefone deixado de lado, um prato de cachorro-quente e uma brincadeira no gramado.

E alguém dizendo, quase sem perceber a importância daquilo:

“Eu pensava que ele nem brincava mais.”

Talvez, naquela noite, todos nós tenhamos descoberto que ainda havia muita coisa para brincar.

E, principalmente, muita coisa para viver juntos.

Texto escrito por Luiz Araujo, SAD Felicidade

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