Padre Pigi – Um homem que não mede sacrifícios na batalha em defesa dos moradores das Favelas e sem casa.

No dia do Líder Comunitário homenageamos Padre Pigi, um homem de muita fé, garra  e esperança que desde sua chegada ao Brasil em 1964 não mede sacrifícios na batalha  em defesa  dos moradores das Favelas e sem casa.

Toda uma vida de generosidade para ajudar o próximo.  A realidade pulsante de um amor que não acaba foi crescendo e contagiando muitos corações.  É fascinante seu devotamento à Igreja e ao povo, mesmo com os sucessivos acidentes e problemas de saúde que lhe impõem cada vez mais sacrifícios.

Compartilhamos com vocês uma das cartas escrita por ele destinada ao Dr. Marcio Lacerda, uma de tantas outras tentativas de dizer aos governantes a maneira correta de garantir os direitos de cidadania, especialmente para os pobres.


Belo Horizonte 17/10/2008

Ex. mo Dr. Marcio Lacerda

E equipe redatora do “PROGRAMA DE GOVERNO ALIANÇA”

Quem lhes escreve, após estudo do setor relacionado sob o item VII- “Aliança por uma Cidade com todas as Vila Vivas”, está envolvido desde os anos 60 com a questão de legalização e urbanização de vilas e Favelas, tendo participação nos anos 80 aos processos de lutas faveladas que levaram a transformação da URBEL de companhia minerária da Prefeitura em Companhia urbanizadora de Vilas e Favelas.

Reconheço estar totalmente desafeto ao estilo de Trabalho da URBEL inaugurado no início deste Século, por discordar diametralmente a respeito do diagnóstico consubstanciado na pag. 43 do “Programa do Governo”, que reduz aas favelas a “amontoados” (o termo “aglomerado” foi cunhado desde o início para desclassificar o sentido da presença da favela no contexto urbano da cidade grande). Diagnóstico de matriz claramente ideológica e acadêmica que não reconhece nenhum valor à criatividade sofrida de um povo excluído, e assim mesmo capaz de conquistar no contexto da cidade grande o sagrado direito que ele tem à moradia, dentro dos padrões de sua cultura, de sua raiz popular, e dos limitados meio que detém para consubstanciar este direito básico do ser humano e da família. Só por isso, a favela deveria ser abordada com respeito, carinho e espirito de admiração – e ser considerada “a-priori” patrimônio histórico e cultural da cidade, merecendo da parte dos governantes que todos os esforços sejam envidados para manutenção local de sua configuração característica e altamente instrutiva a respeito de como o pobre sabe construir soluções onde a academia só enxerga miséria, feiura e desordem. Não de forma diferente a cultura mundial trata hoje “aglomerados” como Ouro Preto, e os outros centros históricos das maiores e mais visitadas cidades medievais da Europa, que se desenvolveram a partir das “favelas”. É este espírito da Lei Municipal Pro-favela que o povo favelado arrancou a duras pena do poder público, em época ainda de ditadura militar e sob a ameaça da famigerada CHISBEL de péssima memória… Esta Lei hoje está totalmente arquivada, desconhecida e evidentemente violada pela programação recente “Vila Viva” que está totalmente imbuída dos princípios que se encontram no Programa de Governo acima citado, de matriz exclusivamente acadêmica no Programa do Governo acima citado, de matriz exclusivamente acadêmica, ideológica e abstrata. Na realidade, o povo atingido por este programa (a pequena porção que aceita as condições oferecidas pelo programa) é espremido sem condições nenhuma de elasticidade em apartamentos feitos a imagem e semelhança das experiências russas da esquerda histórica, num espaço de 36 a 50 metros quadrados, imitando a classe media brasileira manipulada pela especulação edilícia desumanizante e neurotizante das financeiras e empreiteira, únicas verdadeiras ganhadoras do processo massificado da construção anônima da cidade planejada pelos acadêmicos do poder. Mas as maiorias das famílias atingidas não aceitam esse regime, e preferem em nome da sua cultura e suas necessidades reais, receber minguada indenização e se mandar pela cidade a fora, em busca de outra chance para lar a medida humana, mesmo ajudando a formar novas favelas dentro, agora, da Região Metropolitana toda… E o espaço “liberado”, em que pese o idealismo também abstrato de ser transformado em jardim e jardim e infraestruturas caras para poucas remanescentes famílias, no projeto real dos que mandam na cidade – é para ser descaracterizado: de ZEIS-L para ZAR OU ZEPAM, etc. abrindo caminho para rica especulação em terreno agora “nobre”…

Prezado Dr. Márcio Lacerda – permita-me lhe apresentar uma simples sequência matemática, da qual se depreende que a situação verdadeira da moradia favelada, em termos estritamente materiais, é bem melhor que qualquer um dos planos habitacionais supostamente brilhantes do “Vila Viva”: na, pag. 49 do seu programa, dois dados são apresentados: 126,000 domicílios ocupando 16,1 quilômetros quadrados do Munícipio vejam bem: 16,1 quilômetros quadrados são 16.1000.000 metros quadrados, que se divididos por 126.000 dariam para cada família 127,70 metros quadrados; supondo que metade desta área seja ocupado por espaços não usados para morar por cada família (já por si maior do que qualquer apartamento do “Vila Viva”). Todavia: na realidade podemos afirmar que a metade destes domicílios em Belo Horizonte já são bifamiliares (dois pavimentos) – portanto, o terreno ocupado não deve ser atribuído a 126.000 domicílios, e sim a 94.500 construções (mono ou bifamiliares) – o que faz com que a família tenha a disposição 170,37 metros quadrados, e supondo que a metade deste espaço seja não utilizado para habitar, resulta que cada família favelada em Belo Horizonte mora efetivamente em 85,18 metros quadrados: quantas famílias de classe media nossa não dispõem desta área em seus “apertamentos” caríssimos, que pagam em 25 anos a duras penas!…

Isto é só um exemplo, que demonstra que a favela não é problema é solução e solução genial; tenho amigos que fizeram teses universitárias sobre isso! E que favelado merece respeito, incentivo, admiração, e não desprezo e afastamento favela desmantelada por ser “aglomerada”…

Estou disposto, com meus amigos que cultivam o mesmo ideal a respeito de uma VERDADEIRA VILA VIVA, de discutir até publicamente o assunto a qualquer momento, inclusive se acontecer a sua eleição para Prefeito desta Cidade.

Receba alegada a esta minha distribuição um livrinho feito por nós nos anos 80, que expõe a essência da abordagem autêntica da questão da favela no Brasil e entre nós em Belo Horizonte: é fruto de experiência popular e vivência no meio (coisa que muitas das vezes os acadêmicos contratados pelo poder público não têm).

Pe. Pier Luigi Bernareggi – (Pe. Pigi)

TAGS:
  • #padrepigi #kalil #padregiussani #etelvina #doraribeiro #pbh #pigi #gilmarairis #marciolacerda #favela #jardimfelicidade #lidercomunitario #rosabrambila #trabalhosocial #aprendizalvorada
  • Veja também